Quando 'Tudo Bem' Não É Bem Nada
Por que ficar em silêncio também é uma reação, e o que isso está te custando
No fim de semana passado, a gente fez um passeio de barco num lugar lindo perto da cidade, mas com uma sensação de estar no meio da selva. Jacarés, capivaras, o cheiro de brejo.
Isso tornava a paisagem muito especial. E de vez em quando dava pra ver os prédios lá no horizonte.
Oito pessoas num barco bem grande. Um grupo de quatro lá atrás, perto do piloto, um casal na frente, e eu e o Phil no meio, a alguns metros de todo mundo.
Um homem do grupo era bem barulhento. Queria uma cerveja. Queria fumar o cigarro. O piloto disse: tecnicamente não pode fumar aqui, mas se eles não se importarem, pode, apontando pra a gente.
Por que eu tô contando isso?
Porque eu costumava ser alguém que estava “bem” com quase tudo. E esse bem, eu sei agora, não era bem coisa nenhuma.
Talvez você se reconheça nisso.
Muitas vezes não parece um problema, porque por fora você parece tranquilo, flexível, descolado. Ninguém te nota porque você não é o que discorda. Na verdade, você parece aquele que tenta encontrar uma solução, ou pelo menos não alimenta brigas ou conflitos.
Mas olha de perto.
Você não fala sua preferência no grupo pra não complicar a decisão. O ar-condicionado tá gelado e você tá morrendo de frio, mas não pede pra aumentar. Você preferia ficar em casa, mas sai mesmo assim pra agradar alguém. Você não gosta de uma certa atitude, mas respira fundo e não fala nada.
São tantos pequenos momentos. Tanto silêncio que vai te engolindo.
Isso é um padrão. Que não te ajuda muito a ir onde voce quer chegar.
Um que aciona a sua fisiologia pra operar em modo de sobrevivência. Foi construído pra evitar conflito, confusão, discussão. Não é autêntico. Não é paz, mesmo que pareça paz por fora.
Na maioria das vezes, cria ressentimento e frustração. Também aumenta a distância entre a clareza do que está no seu coração e a sua capacidade de dizer isso. Você sente, mas não consegue nomear.
Quando o homem se virou pra mim e perguntou: você se importa se eu fumar? Meu primeiro pensamento foi: tudo bem, o barco é grande o suficiente, eu posso só me afastar.
Se eu estivesse no piloto automático, essa resposta teria saído rápida da minha boca. Pode, sem problema. Me afasto alguns metros ou fico aqui mesmo e aguento a fumaça.
Mas eu senti o meu corpo.
Um leve aperto na garganta. Meu corpo se movendo bem sutilmente pra trás, como se tentasse criar distância daquela situação.
E um pensamento que veio na sequência: isso realmente tá ok pra mim?
Parei. Só uma fração de segundo.
E então respondi, com muita calma: sim, me importo. Prefiro que você não fume aqui.
O rosto dele caiu. Ah, você se importa. Ok. Ele não estava esperando essa resposta. Dava pra sentir a frustração vindo dele.
Ele não fumou. Eu não me afastei. A gente curtiu o restante do passeio sem fumaça de cigarro.
Quando você opera no padrão, você prefere lidar com o seu próprio desconforto cheirando fumaça do que sentir a frustração de alguém com algo que você fez.
Fica interessante aqui…
A gente acha que reagir significa perder o controle. Explodir. Expressar algo grande demais, alto demais, exagerado demais.
Sim, isso pode ser uma reação.
Mas também é uma reação aquela em que você fica em silêncio. Onde você cala as suas necessidades. Onde você parece educado e tranquilo por fora, a pessoa gente boa que ajuda todo mundo a conseguir o que quer. O sim com um sorriso, ou simplesmente: ah, não se preocupa, tá ótimo.
Isso também pode ser uma reação.
É aqui que está o que reação significa nesse contexto.
E é importante dizer que uma reação nem sempre é uma ação. Pode ser uma emoção. A frustração que você sente mas não nomeia. O desconforto que você registra mas descarta imediatamente. O aperto no peito que você decide que não significa nada e segue em frente. Essas também são reações, acontecendo antes de qualquer palavra sair da sua boca.
Seja ficando dentro ou saindo de você, uma reação é qualquer resposta, sentida ou expressa, sem consciência do momento presente.
Não é baseada no que está acontecendo agora. É baseada no que aconteceu antes. Ela segue um caminho antigo já criado no seu cérebro, uma rota familiar que o sistema nervoso escolhe por ser rápida, eficiente, e que um dia te manteve seguro. Acontece abaixo do pensamento consciente. Quando você percebe o que sentiu ou fez, já sentiu ou já fez.
É uma resposta de estresse.
É a resposta automática de agradar, ceder, se diminuir pra não haver conflito. Parece flexibilidade. Parece gentileza. Por fora parece que você é fácil de conviver.
Mas não é gentileza. É o sistema nervoso escolhendo o que parece seguro em vez do que é verdadeiro.
Esse é o “tudo bem.”
Essa é a pessoa gente boa que ajuda todo mundo a conseguir o que quer, menos a si mesma. Esse é um padrão gravado no corpo, rodando com uma instrução antiga que não se aplica mais.
Então aquele sorriso, aquele tá ótimo, isso também é reação.
E em nome da paz de todo mundo, você nunca consegue o que quer. Não o restaurante, não a temperatura, não a música. E nem a vida.
Se eu tivesse dito sim pra aquele homem, no momento em que sentisse aquela fumaça, teria ficado incomodada. E teria virado isso contra ele imediatamente. Por que ele tá fazendo isso no meio da natureza? Me sentiria perturbada, frustrada, irritada.
Eu estava assistindo o sol se pôr sobre a água. Aquela paz teria sido engolida pelo cheiro do cigarro dele.
Mas ele não seria o problema. O cigarro dele não seria o problema.
Eu estaria reagindo à consequência do meu próprio não que ficou engolido.
É isso que os padrões inconscientes fazem. Eles te tornam vítima de uma situação que você mesmo criou.
Se eu tivesse dito sim e realmente quisesse dizer isso, a fumaça não me incomodaria. Porque não tem traição. Um sim de verdade não deixa resíduo. Você escolheu, você assume, a fumaça é só fumaça. Mesmo não curtindo o cheiro, eu estaria bem dentro de mim, porque dei um sim inteiro.
O ressentimento não vem da fumaça. Vem do momento em que você disse algo com que o seu corpo não concordou. Tudo depois, a irritação, a culpa jogada no outro, a raiva silenciosa, é só a ferida falando.
Então a pergunta nunca é só: você disse sim ou não.
A pergunta é: você se consultou antes de responder?
É aqui que o corpo se torna o seu maior professor.
Ele faz a pergunta. Meu corpo a recebe. Antes mesmo de pensar, ela viaja para o que é familiar. O caminho que diz sim, se afasta, fica tranquilo, não complica.
Mas então algo diferente acontece. Uma contração. Um sinal. O corpo dizendo: espera, isso não tá certo, isso já não me serve mais.
O seu cérebro tem um caminho preferido. Aquele que ele percorreu mil vezes. É eficiente. É rápido. E vai continuar escolhendo a resposta familiar até que algo o interrompa.
Essa interrupção é a contração. O aperto. O pequeno momento de atrito entre o que é familiar e o que é verdadeiro naquele momento.
Esse sinal não é fraqueza. Essa é a sua sabedoria. Naquele momento você pode escolher.
E quando você faz algo diferente com base no que é importante pra você no momento presente, você quebra um padrão.
Um novo caminho começa a ser criado.
Agora é sua prática continuar reforçando isso.
A maioria das pessoas perde esse momento. Porque vivem da cabeça pra cima há tanto tempo que as mensagens do corpo parecem ruído de fundo.
É isso que quero dizer quando falo em construir capacidade. Não capacidade de aguentar mais.
Capacidade de sentir mais, e de agir a partir do que é verdadeiro agora. Dizer não pra aquele homem ainda não pareceu o caminho mais fácil. Meu corpo sentiu o desconforto disso.
Mas tenho consciência suficiente agora pra saber que o que é desconfortável e o que é errado nem sempre são a mesma coisa.
O padrão não quebra na mente. Ele quebra na ação diferente que você toma com a consciência que você agora tem.
E essa ação nem sempre tem a mesma cara. Não é sobre dizer sim ou não. É sobre tomar a ação que é coerente com o que é verdadeiro pra você naquele momento. Aquela que te deixa continuar de coração aberto. Aquela que te deixa continuar se escolhendo, mesmo quando essa escolha traz frustração ou decepção pra alguém.
Essa é a porta pra construir uma vida e um negócio autênticos.
Com amor,
Carolina
Quer saber mais sobre o trabalho que a gente faz? Clique Aqui.



