Quando parei de me dividir ao meio
Sobre fragmentação, performance e a escolha de ser completo
Era mais um dia de neve em Montreal. Frio demais para uma caminhada no almoço, então peguei minha comida e comi na minha mesa como sempre fazia durante aqueles invernos pesados.
Minha colega sentada do meu lado estava com dor de cabeça.
Eu já vinha vivendo uma vida dupla há um tempo. Profissional corporativo durante a semana, praticante de bioenergética aos sábados.
Eu tinha encontrado minha própria cura para dores de cabeça através desse trabalho, e estava discretamente dando sessões fora do meu emprego “de verdade”.
Naquele dia, algo mudou.
Perguntei se ela queria tentar algo que tinha me ajudado.
Compartilhei brevemente a minha história. Ela não pareceu convencida, mas disse que sim.
Menos de dez minutos depois de começar a técnica, a diretora do nosso departamento entrou na nossa seção.
Quando a vi, meu coração parou de bater.
Eu já estava tremendo por oferecer isso naquele espaço. Mas quando A CHEFE apareceu, congelei.
“O que está acontecendo aqui?” ela perguntou.
Expliquei em uma frase curta que estava tentando ajudar com a dor de cabeça.
“Ah, ok,” ela disse. E saiu.
Me senti meio morta, meio viva. Meu coração foi de não bater para disparar a 100 por hora. E então, depois que meu sistema processou o que tinha acabado de acontecer... me senti em casa.
Aqui está o que a maioria das pessoas não vai te contar sobre construir um negócio consciente:
A fragmentação que você está vivendo não é só desconfortável. É exatamente a coisa que está bloqueando o seu crescimento.
Você já sabe que seu estado interno afeta os resultados do seu negócio. Mas o que vejo com cliente após cliente é algo mais específico: a exaustão de alternar entre quem você é no seu negócio e quem você é em todos os outros lugares está literalmente drenando a energia criativa que você precisa para crescer.
Alguns dos meus amigos mais próximos sabiam o que eu estava fazendo naquela época, mas eu estava vivendo duas identidades separadas e não era divertido.
Eu amava meu trabalho corporativo, minha equipe, a estrutura de tudo aquilo. Mas também amava essa outra parte de mim que era esotérica e mística, e quase ninguém lá sabia sobre isso.
Na minha cabeça, eu tinha que esconder essa parte... até não ter mais.
Depois desse momento, depois que meu coração parou e depois disparou, algo se assentou.
A chefe viu muito mais de quem eu era. Na verdade, ela não se importou nem um pouco com essa outra parte de mim. Mas eu me importei por ter sido vista.
E aquele sentimento? Aquele sentimento era leve, gostoso, seguro…. É algo que não tem preço.
Isso provavelmente aconteceu um ano e meio antes de eu pedir demissão. Mas naquele momento, eu sabia que não trocaria mais a minha inteireza para me encaixar.
E aqui está o engraçado: eu tinha medo de ser vista no corporativo como “a pessoa esotérica”. Mas no mundo esotérico, também não achava que tinha o direito de pertencer.
Quando estava perto de pessoas mais espirituais, sentia que não tinha autoridade nenhuma para falar sobre o mundo invisível. Era um bebê engatinhando perto de bruxas antigas.
E me sentia diminuída porque tinha um emprego corporativo.
A transição é difícil. O espaço entre identidades é doloroso, instável, me sentia desenraizada, confusa.
Eu acreditava que tinha que separar os dois mundos, assim como pensávamos que ciência e espiritualidade não podiam se conectar.
Mas a completude não te escolhe. Ela fala com você.
E você precisa escolhê-la.
Você sente no aperto no peito, na instabilidade quando tenta explicar seu lado espiritual para uma pessoa lógica. Sente ao medir as palavras, na performance, na exaustão de alternar entre quem você é no seu negócio e quem você é em todos os outros lugares.
Você sente um anseio por algo que não consegue colocar em palavras.
E isso não acontece só no trabalho. Aparece também nos nossos relacionamentos mais próximos.
Tudo isso... são sintomas de não escolher a completude.
A maioria das pessoas espera por permissão. Ou pelo modelo de negócio certo. Ou pela audiência estar “pronta” para tudo que você é.
Mas o que aprendi trabalhando com empreendedores que fizeram essa mudança é que a completude é algo que você pratica. Não é uma decisão única ou um redesign de marca.
É um sim somático ao qual você volta de novo e de novo, e há formas específicas de começar a sentir onde esse sim vive no seu corpo e no seu negócio agora mesmo.




