A Armadilha Sutil de Quem Já Sabe Demais
Não é mais regulação que você precisa. É capacidade.
Tem algo que eu vejo com frequência em pessoas que já fizeram muito trabalho de autoconhecimento.
Não são iniciantes. Conhecem as práticas. Têm uma relação com o corpo, com a respiração, com o sistema nervoso. Conseguem reconhecer uma resposta de estresse em tempo real. Sabem como se ancorar.
E mesmo assim, ainda não estão fazendo aquilo para o que vieram ou ainda estão presas em jeitos antigos de ser tentando criar algo novo.
Isso me confundia. Eu achava que o problema era falta de informação, de estratégia, ou de suporte adequado. Mas quando olhei com mais cuidado, percebi que estava acontecendo outra coisa.
As práticas de auto regulação estavam funcionando. Esse era o problema.
Curioso, né?
Vou explicar. Quando você aprende a regular o sistema nervoso, aprende a sair da desregulação e encontrar estabilidade. Aprende a se trazer de volta. A encontrar chão quando tudo parece balançar.
Isso tem um valor real.
Levei anos para desenvolver essa capacidade e para ser sincera acho que é a pratica de uma vida inteira.
Mas a regulação, por si só, é neutra. Ela te devolve ao ponto de partida. Só que não te diz para qual ponto de partida você quer voltar.
Então, se a vida que você construiu não cabe mais em você, a regulação te mantém confortável dentro dela. Se o trabalho que você está fazendo deixou de ser o trabalho certo, uma boa sessão para se auto regular torna mais fácil sentar de volta e continuar.
Se há algo pedindo sua atenção que parece desconfortável e estranho, seu sistema nervoso vai tratar esse desconforto como sinal para regular — não para investigar.
A prática vira um teto.
Percebi isso em mim mesma em São Paulo, durante um treinamento da bioenergética.
Me dei conta que estava usando as praticas que eu tinha para me convencer de que deveria ser grata. Para voltar ao “tá tudo bem.” E fazendo a minha insatisfação parecer errada ao invés de assumir que eu ja não queria estar onde eu estava.
Meu professor disse algo simples:
“Tem gente que faz esse trabalho para manter o status quo quando o status quo não cabe mais.”
Aquilo bateu forte.
A insatisfação não era o problema. Era informação. E eu tinha desenvolvido um sistema muito refinado para ignorá-la.
O que eu tinha era regulação. O que eu precisava era de capacidade — e são coisas diferentes.
A regulação te devolve a um estado conhecido. A capacidade permite que seu sistema aprenda que um estado desconhecido não é uma ameaça.
Essa segunda coisa exige algo mais difícil. Exige ficar. Ficar quando você quer fechar o computador. Quando a ideia parece inconveniente. Quando a conversa é desconfortável. Quando ser visto parece demais. Ficar tempo suficiente para o seu sistema nervoso atualizar a leitura que faz da situação.
Isso não é algo que você faz uma vez numa sessão e pronto… tá feito! É algo que se treina. Como qualquer outra coisa. Repetição. Pequenas doses do desconhecido, revisitadas dia após dia, até que o familiar não seja mais a única opção de segurança.
Para quem já fez anos de trabalho de autoconhecimento, essa distinção pode ser difícil de enxergar.
A própria fluência que te torna eficaz num tipo de prática pode te fazer perder o outro tipo. Você aprendeu a se sentir melhor. Essa habilidade é real.
Mas o se sentir melhor para ficar onde ja não te cabe não vai te levar a lugar nenhum.
Quando ajustei minha própria prática em direção à capacidade em vez da calma, as mudanças não foram dramáticas. Movimentos parecidos. Ainda com a respiração. Intenção diferente. Em vez de tentar me sentir melhor, pratiquei ficar com o que estava lá.
O tapete de yoga se tornou um altar para a honestidade. Aquela insatisfação, aquele desejo de algo mais, aquela sensação de que existe mais para você do que o que está experienciando — tudo isso que faz o corpo ficar inquieto não está pedindo calma. Está pedindo pausa, sim, mas seguida de uma ação diferente.
Com o tempo, os momentos que antes me paralisavam começaram a parecer administráveis. Não confortáveis. Administráveis. E isso foi suficiente.
Quando era hora de escrever, escrevi. Quando era hora de fazer a ligação, fiz. Quando era hora de deixar minha vida em Montreal para ir à Costa Rica, fui.
Não porque estava perfeitamente calma. Porque havia treinado a capacidade de sentir toda a amplitude da experiência e ainda assim avançar em direção ao que já sabia.
Faço esse trabalho há alguns anos, e nos últimos 3 anos ele aconteceu dentro de um container fechado na nossa comunidade do Sacred Business Flow. Depois de alguns insights sobre como expandir essa capacidade pode ajudar muita gente a se mover com mais intenção para criar o que deseja, decidimos abrir para mais pessoas.
As aulas ainda serão em inglês, mas se você fala inglês, pode ser que seja para você, clica aqui para colocar seu nome na lista.
Se não fala mas se interessou, me manda uma mensagem — quero te ouvir.
Com amor,
Carolina




