027: Algo que você parou de curtir
Mas não porque você deixou de amar.
Essa semana a gente teve uma aula de embodiment na nossa comunidade Radiant Flow, conectando com o corpo pra abrir mais espaço pro prazer. Nas minhas próprias reflexões, percebi uma coisa que eu quero dividir aqui com você.
A gente tende a achar que o prazer mora nos momentos de folga, e que o prazer do dia de trabalho é mais relacionado ao completar as tarefas… feito… a gente celebra!
Resolvi sentar com essa ideia um pouco mais… não tenho todas as respostas, mas o que eu sinto me diz que dá, sim, pra me abrir mais e experimentar mais prazer no dia a dia. Até nas coisas que eu rotulei não prazeirosas.
Prazer sente bem no corpo, sente leve e expansivo, normalmente é causado por uma experiência que você curte, que traz relaxamento e envolvimento ao mesmo tempo. E é fácil achar que o prazer vem só de escolher a coisa certa pra fazer.
Faço algo que gosto, e o prazer vem atrás. A gente lê em todo lugar: faça o que você ama.
Mas quando comecei a olhar mais de perto, me dei conta que a gente tá perdendo muita coisa na forma como poderia estar vivendo a vida.
A gente vive numa sociedade treinada pra associar o senso de quem a gente é ao fazer. Quanto mais você faz, melhor.
Como você faz? Não importa muito, contanto que esteja feito.
Mas pensa só em quanto tempo a gente passa fazendo as coisas, e se no meio da tarefa a gente tá só forçando mais, que vida é essa que a gente tá vivendo?
Ficou claro pra mim que o quê não supera o como. E o como pesa muito mais do que eu imaginava.
Amo cerâmica. Me relaxa, me traz alegria, me envolve por completo. Cerâmica vai direto pra categoria das coisas que me dão prazer.
Mas ultimamente, parei de curtir.
Tive que parar e me perguntar por quê.
Não era que eu tinha deixado de amar cerâmica. É que a minha aula caía na terça à noite, um dos meus dias mais corridos. Eu tinha que dirigir até o centro bem na hora que costumo jantar, e acabava indo dormir mais tarde do que gosto. A aula dura cerca de duas horas mas de tão cansada, as vezes ficava pesado fazer até o fim.
Tô cansada demais. Só quero desacelerar. Não era mais relaxante.
Mas era importante pra mim ter cerâmica na agenda, porque era uma coisa que eu tava fazendo por mim, então eu tava dando conta…
Compara isso com uma aula de sábado de manhã (quando dava). Curto o trajeto até o centro. Tô descansada. Tô totalmente presente, totalmente envolvida.
Mesma cerâmica. Mesma eu. Experiência completamente diferente. Viver a cerâmica num sábado de manhã era uma completamente diferente de uma terça à noite.
E aí percebi o mesmo padrão do outro lado, as coisas que estavam na categoria de não prazeirosas.
Não curto organizar meus documentos pro imposto, e tenho que fazer isso todo mês. Por muito tempo agendei isso pra uma sexta de manhã, e ia empurrando só pra dar conta. O prazer só aparecia quando a tarefa acabava, tipo um alívio. Ahh, acabou.
Quando me perguntei: qual é a minha relação com o prazer nessa tarefa? Será que dá pra curtir isso algum dia? Mudei pra segunda de manhã. E de algum jeito, tô curtindo. Não só o alívio de terminar. O fazer em si parece mais leve, até gostoso.
Isso pode soar simples.
Mas depois da nossa aula, me dei conta do quanto a gente monta a agenda em volta do que faz sentido, ou do que a gente acha que dá pra realmente dar conta, sem nunca perguntar o que faria bem de verdade.
Na desconexão do corpo, a gente se coloca pra ser um robô, pra empurrar e só dar conta das coisas, esquecendo que a vida acontece no meio disso tudo.
Então agora eu tô me fazendo uma pergunta diferente. Como é que eu monto uma rotina cheia de momentos prazerosos, mesmo nos dias em que o quê não cabe no balde do “eu gosto disso”?
Não é sobre descartar o quê por completo. Mas nao deixar que a vida passe como uma lista de afazeres.
Se você tá construindo seu próprio negócio e sonhando com o dia em que não vai mais precisar fazer as coisas que não curte na maior parte do dia, essa pergunta ainda importa. O “o que” fazer conta sim.
Se pergunte o que você ama de verdade. Mas antes mesmo de chegar lá, tem uma pergunta que importa tanto quanto.
Como você pode mudar a sua energia agora, no quê que você já tem, quando o quê ainda não é uma escolha?
Por mais simples que pareça, o como muda a sua energia. E mudar a sua energia abre o campo pra outras coisas se tornarem possíveis. Isso na verdade te ajuda a se conectar com o quê com mais facilidade.
Talvez você ache que não tem escolha, mas aqui vão algumas ideias de como mudar a forma como você faz as coisas agora. Tipo eu, por exemplo, só reorganizando a agenda em volta dos seus níveis reais de energia, não só do que cabe no papel.
Adicionar um pequeno ritual antes das atividades que você acha mais tediante. Colocar música enquanto trabalha. Adicionar movimento no meio de longos períodos sentado. Se dar uma pausa no meio da semana, algo tipo um encontro com você mesmo que vem seguido de uma tarefa que você curte menos.
Por menores que pareçam, essas coisas mudam a forma como você atravessa tudo o que faz. O prazer não foi feito pra ser sentido só no fim de uma tarefa.
O prazer é a fonte de onde você cria.
Isso não é sobre fazer só o que você ama. É sobre encontrar um jeito de amar tudo o que você faz.
Não quero que você atravesse o seu dia só marcando os itens da lista, anestesiado, feito um robô. Quero que você sinta o seu dia enquanto vive ele, não só quando ele finalmente acaba. Isso é o que eu desejo para mim também.
Qual é a sua relação com o prazer agora? Tem algo na sua vida que você parou de curtir, não porque deixou de amar, mas por causa de como ou quando você faz?
Pega seu diário e passa um tempo com essa pergunta. Deixa a resposta vir sem pressa.
Com amor,
Carolina
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