024: Eu sou egoísta... também
As duas palavras que acabaram com uma guerra que eu vinha perdendo havia anos.
Quero falar sobre aquela voz…sabe qual?!
Aquela que diz quem você pensa que é. Isso não é pra você. Você não é suficiente.
Por muito tempo achei que a resposta era fazer o outro lado falar mais alto. Começar uma batalha dentro da minha cabeça.
Sou sim. Isso é pra mim. Eu dou conta.
O problema é que eu só estava alimentando a guerra, fazendo um lado ser o certo e o outro ser o errado, e ela nunca acabava de verdade.
E a voz contra quem eu lutava nunca foi embora. Só ficou quieta. Parou de gritar e começou a zumbir, por baixo de tudo, como a geladeira que a gente esquece que está ligada até o dia em que ela desliga.
Tudo o que a gente combate ou evita só cresce. (Já tentou não pensar num elefante azul? Deu certo?)
Tem uma imagem à qual eu sempre volto. Um cabo de guerra. E quando você olha de verdade, as duas pontas da corda estão nas suas próprias mãos.
Uma mão puxando eu sou suficiente, eu dou conta, estou construindo algo real. A outra mão puxando eu não sou suficiente, quem sou eu, isso nunca vai dar certo.
Uma corda só fica esticada quando os dois lados puxam.
Então, quanto mais forte eu puxo a ponta boa, mais a outra ponta se crava, ou a coisa toda afrouxa. Toda vez que eu aumento o positivo, estou silenciosamente alimentando o negativo.
Estou deixando a guerra maior. E sou eu que estou no meio, segurando as duas pontas, me cansando.
Essa foi a coisa que eu precisei enxergar. A voz animada nunca ia vir me resgatar. Ela era a prova. Eu não fico parada na minha cozinha dizendo pra mim mesma “eu dou conta” antes de me servir um copo d’água.
Eu só recorro a isso quando alguma parte de mim já tem certeza de que eu não consigo.
Tive uma experiência recente que deixou isso muito claro pra mim. E não tem nada a ver com negócios.
Minha cadelinha, carinhosamente conhecida como Chacha. Uma Yorkshire, quinze anos. Esse ano ela ficou doente. Foi parar no hospital em dezembro, e de novo em maio, e na segunda vez ficou claro que ela tinha perdido a maior parte do que fazia a vida dela ser dela.
E a veterinária falou… talvez seja hora de considerar a eutanásia.
Não sei se você já teve que fazer esse tipo de escolha. O que eu percebi é que, não importava o que eu escolhesse, eu me sentia egoísta.
Deixá-la partir, e eu sou egoísta. Quero meu tempo de volta. Quero o alívio.
Mantê-la aqui, e eu também sou egoísta. Quero que ela fique porque não quero perdê-la. Talvez mais um remédio. Talvez ela ficasse bem.
Não existia uma versão em que eu não fosse egoísta.
A veterinária e a moça da recepção ficavam, com toda a delicadeza, me dizendo todos os motivos pelos quais eu não era. E meu corpo só dizia, não. Eu estou sendo egoísta. E eu ali, pensando, será que é minha crítica interna? Será que eu sou uma pessoa ruim?
Eu estava puxando a corda pelas duas pontas. Me recusando a ser egoísta, e então criando uma história pra provar que eu não era.
Então eu fiquei quieta e perguntei pro meu corpo. Devo deixá-la ir? E meu corpo disse sim. E sinceramente, que merda, porque agora eu tinha que realmente ir até o fim e fazer aquilo.
Eu chorei. Fiquei tão triste. E ainda me sentia egoísta e me sentia errada por sentir aquilo, ainda montando minha defesa. A guerra estava rolando.
Aí algo dentro de mim falou, espera. Você é egoísta também. Mas você não é só egoísta.
Eu também sou egoísta.
E no instante em que deixei que isso fosse verdade, algo mudou. Eu conseguia sentir a alquimia disso. Eu não venci a discussão. Eu larguei a corda.
E aqui está a parte que eu só entendi depois. Eu não larguei a corda desistindo cedo, nem me elevando acima de tudo, nem decidindo ser a pessoa calma que não puxa.
Eu larguei porque finalmente deixei as duas pontas me esticarem até o limite.
Egoísta e altruísta ao mesmo tempo.
As duas verdadeiras. As duas minhas. Sem pedir desculpa. O problema nunca foram os dois lados.
Era fazer de um deles o inimigo, aquele que eu precisava combater pra ficar bem. No instante em que parei de fazer um lado ser o errado e o outro ser o melhor, não sobrou nada contra o que puxar.
Eu a deixei partir. Fiz isso por ela, ela estava sofrendo. E fiz por mim também. As duas verdadeiras. As duas estão bem.
A parte mais honesta. Na primeira vez que voltei pra casa, falei pro Phil que alívio era não ter mais que limpar o xixi dela do chão. E me vi me julgando por ter dito isso. Aquilo foi egoísta.
E isso também estava tudo bem.
Então por que eu estou te contando isso numa carta sobre o seu negócio?
Porque é a mesma voz. Sou suficiente, não sou suficiente. Sou generosa, sou egoísta.
A gente faz isso o dia inteiro.
A gente faz mais ainda quando vai aumentar um preço, e a voz diz, quem é você pra cobrar isso. Aí a gente baixa e chama de generosidade. Mas e se for simplesmente verdade. Eu quero ser bem paga e eu também sou generosa.
A gente tenta construir negócios a partir de uma metade só.
A metade que acerta, que se sente pronta, que nunca parece gananciosa ou insegura. A gente se gasta escondendo o resto, exausta, fingindo que não é também a outra coisa.
Mas você é. Você é aquele que acerta e aquele que erra. O generoso e o ganancioso. E você não se liberta escolhendo a metade mais bonita, nem subindo por cima de toda a bagunça.
Você se liberta deixando os dois lados te esticarem, até o limite, até conseguir segurar os dois ao mesmo tempo sem pedir desculpa.
A crítica interna está aí por um motivo. A torcedora também. A luz não está em algum lugar acima das duas. Ela é o que sobra quando você para de pedir desculpa por qualquer uma delas.
Eu não estou tentando ser suficiente. Eu não estou lutando contra o não-suficiente.
Eu sou.
Com amor,
Carolina
Pronto pra ir além da leitura? O Servir & Receber é um programa de 7 dias onde a gente trabalha juntos clareza de valor, comunicação e as bases do seu negócio.
E se você fala inglês, nossa publicação Sacred Business Flow pode te interessar — é uma ótima forma de ampliar sua visão e expandir seu network fora do Brasil.



