010: O Oceano Não Vai Até Você
Uma verdade gentil sobre o chamado que você ainda não respondeu
Estávamos no Rio de Janeiro semana passada. Ar fresco, água salgada, um céu diferente. Meu corpo precisava de tudo isso.
Numa manhã saí sozinha. Caminhei até o fim da praia, onde ficam as pedras, onde vão os surfistas. Era por volta das 6h.
Fiquei ali parada, com uma sensação silenciosa de admiração no peito… esses seres humanos escolhendo entrar naquela água antes que a maior parte da cidade tivesse sequer aberto os olhos, remando com força em direção às ondas grandes bem ali perto das pedras, repetidamente, com tanta coragem e tanta alegria.
Se você já esteve numa prancha, sabe aquela sensação de flutuar. Pra mim, essa é a sensação corporal da entrega a água te carrega pra cima e pra baixo, levemente, suavemente, você não tem controle nenhum e, de alguma forma, isso parece paz.
Mas flutuar não pega onda.
Pra pegar uma onda, você precisa se mover. Remar tão forte e tão rápido quanto consegue, encontrar a força do oceano com tudo que você tem naquele momento. E o que eu ficava observando era… eles não esperam ver a onda completamente antes de ir (na verdade, não dá mesmo).
Eles sentem primeiro. Algo no corpo deles lê o que os olhos ainda não conseguem confirmar, e eles se comprometem completamente com essa sensação.
Às vezes a onda os carrega. Às vezes não. Mas quando carrega… quando um ser humano e o oceano se tornam um só por aqueles poucos segundos… é pura beleza. Eles fluem!
O surfista que mais me chamou atenção pegou 2 ondas grandes naqueles 15 a 20 minutos que fiquei ali. Mas antes de cada uma, houve tentativas frustradas — ele sentia algo, remava com tudo que tinha, se entregava de verdade… e a onda simplesmente não o carregava.
Cada vez, sem nenhuma frustração aparente, ele remava de volta para o seu lugar com calma, se virava para o oceano e esperava.
A linguagem do corpo dele dizia uma coisa: outra vem aí.
Não como esperança. Como uma certeza que vivia num lugar mais fundo que o pensamento.
Uma frase de um dos meus mentores me veio ali… quando a vida bater na sua porta, não esteja de pijama.
Era exatamente isso que eu estava vendo.
Alguém que estava pronto. Não tenso, não forçando — pronto.
Relaxado e completamente presente ao mesmo tempo. A postura de alguém que não tem dúvida de que o oceano não está retendo nada. Ele está só se movendo. E o papel dele é estar presente o suficiente para senti-lo.
Ele também tinha remado com força, provavelmente umas 10 a 15 vezes naquela manhã, sem pegar nada. Isso não é fracasso. É treino. É como o corpo aprende a ler a água. Cada tentativa frustrada é o corpo ficando mais fluente na linguagem do oceano.
Ali parado, pensei numa fase anterior da minha vida em que eu estava tão faminta por fazer as coisas acontecerem que gastava a maior parte da minha energia remando para nada. Não porque eu não fosse capaz. Mas porque ainda não tinha encontrado o meu lugar.
Eu estava na água, trabalhando, tentando, me importando muito — mas estava no lugar errado, perseguindo ondas que não eram minhas, exausta antes da certa chegar.
E houve momentos em que eu mal estava na água. Perto o suficiente para sentir o chamado, mas não suficientemente dentro para de fato estar na dança. Esperando me sentir mais preparado. Esperando um sinal mais claro. Esperando que algo de fora confirmasse o que eu já sabia por dentro.
O sinal sempre foi o próprio desejo. Aquilo que continuava voltando, não importa quantas vezes eu colocasse de lado. Aquele chamado quieto e persistente — era a onda se anunciando. Eu só ainda não havia aprendido a chamá-lo pelo nome.
Quero te fazer uma pergunta, e adoraria que você a sentisse em vez de pensar nela.
Onde você está em relação à sua onda?
Alguns de vocês estão na areia.
Dá pra ver a água de onde estão. Sentiram o chamado para algo — um projeto, um negócio, um sonho criativo que carregam há anos. Isso vive no peito e se recusa a ir embora, não importa quantas vezes a vida tenha puxado sua atenção para outro lado. Vocês estão esperando o momento certo, as condições perfeitas, o dia em que finalmente vão se sentir prontos o suficiente.
Quero ser muito gentil aqui, mas o oceano não vai até você na areia.
E esse desejo que continua voltando — o que não te deixa em paz — já é o sinal. Você está esperando por algo que estava te chamando pelo nome o tempo todo.
Alguns de vocês já estão fundo na água, mas derivaram longe demais.
Entraram. Tentaram. Mais de uma vez. E em algum momento no processo ficou complicado — direções demais, tantas mudanças de rota, buscando a onda com garantia antes de se comprometer. Estão trabalhando duro, mas algo parece disperso.
A energia sai, mas não pousa em nada que constrói.
Não estão fazendo errado. Só ainda estão negociando consigo mesmos sobre se isso é realmente de vocês.
Outros ainda… remam sem parar, sem sentir o que o oceano está te convidando a fazer.
Nesse caso, remar mais não vai te ajudar.
Surfistas têm um nome para o lugar onde aquele homem estava sentado com tanta calma, tão pronto.
Chama-se lineup.
Um lugar específico na água — além de onde as ondas quebram, mas perto o suficiente para senti-las chegando e alcançá-las quando vêm.
Nem muito dentro. Nem muito fora.
Você não pensa o caminho até o lineup. Você o sente.
E quero te oferecer isso: o lineup não é uma estratégia.
Não é um plano melhor, nem uma oferta mais clara, nem mais um curso antes de começar.
O lineup é um sim interno.
É o momento em que você para de negociar consigo mesmo sobre se isso é realmente seu, se o timing está certo, se você é suficiente para isso.
É você se plantando diante da única coisa que sabe que veio fazer e dizendo: estou aqui. isso é meu. não vou embora.
É isso. Esse é o primeiro passo inteiro.
Ainda não remar com força. Ainda não pegar a onda.
Só… nomear. Assumir.
Aparecer diante disso de forma consistente com tudo que você é — relaxado e pronto — da mesma forma que aquele surfista ficou diante do oceano às 6h da manhã, sabendo com tudo no corpo que a onda ia chegar.
Porque uma vez que esse sim é real, uma vez que ele vive no seu corpo e não só nos seus pensamentos, tudo começa a se organizar em torno dele. As tentativas frustradas param de parecer fracasso. A espera para de parecer estagnação. Você sabe onde está e sabe por que está lá. Você sabe a hora de remar e a hora de flutuar.
Você dá o passo. O universo dá o chão. Não o contrário.
O oceano sempre estará lá. As ondas sempre vêm e vão. Elas não param por ninguém e não retêm nada de ninguém.
Então, qual é a coisa que você vem sentindo há muito tempo, mas ainda não disse um sim de verdade?
Esse é o seu lineup. E agora é sempre um bom momento para encontrá-lo.
Com amor,
Carolina
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maravilhosa reflexão <3